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Expediente

Agência cheia, todos nos seus lugares, menos ele. Na mesa uma foto de Berlim. Fez a cobertura durante uma semana de um festival de pipas. Nos primeiros 4 dias ficou em um hotel de luxo, oferecido pelo festival. Nos outros dias, ficou numa espelunca bancada pela agência. Nem conexão com a internet tinha. Todo dia era a mesma coisa, metrô lotado, trem lotado, ônibus lotado. Só comia fast-food. Às vezes, não comia. Sentia-se magro demais. Culpa do restaurante novo, comida barata e nada saudável. Sua mãe dizia que aquilo era comida de cadeia.


Uma ligação. Sua avó tinha morrido. Pro interior, em um ônibus mais confortável, sua cabeça parecia se desprender. Um flash. Quando descobriu sua sexualidade, ela tinha sido a primeira a saber. Deu apoio e não contou pra ninguém da família. Família de descendência alemã. Porém nada Frei (livre). O celular vibrou, uma mensagem "se cuida, amor". Reclinou o assento, olhou pro céu, tornou-se imenso.

Poucos de preto, nada de filme americano. O si…
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O Caso dos Limões

Estou aqui procurando uma sacola de lixo, preciso jogar fora esses limões. Eu poderia ter usado eles semana passada, quando uns amigos vieram aqui em casa. Poderíamos ter feito alguns drinks. Mas eu achei melhor guardar pra uma ocasião especial, afinal são mais caros que os sicilianos. Agora estão secos, apodrecidos e sem utilidade nenhuma. Talvez ainda sirvam como adubo, talvez eu os jogue no quintal.
("A beleza da diversidade" de Lisandra Mendes)
Quando eu penso em quintal, eu lembro daquela casa, de quando eu tinha 13 anos. Tinha um grande quintal e tínhamos um pé de acerola. Tinha cachorro, tinha céu estrelado, quando eu conseguia dormir com a janela aberta. Quando acreditava na bondade das pessoas e não tinha medo da maldade do mundo. O que resta agora? Viver trancafiado em um apartamento? Parece que quanto mais a gente cresce, mais sem graça vai ficando a vida.
Vivemos como se fossemos imortais. Desperdiçando nossos dias com coisas tão pequenas. Ou talvez sonhando tão…

Redescobrir

Claro que eu gostaria que não existissem gêneros, porém ignorá-los significa desconsiderar as desigualdades (sociais, econômicas, políticas, entre outras) que existem entre eles. É notório que, na sociedade, a mulher sempre está em desvantagem em relação ao homem. Quando você nasce e um médico já define o seu sexo, você é ensinado a ser um homem ou mulher. Se for menina, já sai do hospital com orelha furada e um enxoval rosa.

Como a gente vive numa sociedade cheia de regras e imposições, que ditam um comportamento masculino e outro feminino, eu sou “obrigado” a definir um certo comportamento ou objeto como sendo do universo masculino ou feminino. Como eu disse, eu gostaria que não houvesse essa separação, mas infelizmente há.
O que eu proponho, não é necessariamente redescobrir meu gênero ou sexualidade. Quero justamente dizer que qualquer homem cis ou não, heterossexual ou não, pode fazer o mesmo, sem que isso afete a forma como ele se vê ou se relacione afetivamente e sexualmente com…

Risqué

Desde que comecei a usar brincos, pintar minhas unhas, passar batom e me apropriar de tudo que é considerado feminino, algo estranho aconteceu. Eu acabei descobrindo minha masculinidade. Claro que quando falo de masculino e feminino, digo na forma padrão, como a sociedade constrói em nossas mentes. Um mulher de cabelos longos, maquiada, magra, de vestido ou saia, roupas rosa e feminina. Embora não seja este tipo de mensagem que quero passar, experimentar esta forma tornou-se importante para mim, contrapondo o padrão masculino em que fui construído.
("A beleza da diversidade" de Lisandra Mendes)
Desde pequeno, sou condicionado a não ser afeminado. Passei pelo bullying em família, na escola, faculdade, no grupo de amigos e, enfim, decidi “cagar” pra tudo isso. Não é algo fácil e nem tão simples. O que chamamos de “desconstrução” é um processo lento e delicado. Mas ele nos permite questionar coisas que nos foram impostas. Daí nasce a oportunidade de se apropriar do que antes e…

Eu Queria Ser Um Monstro

Há um ano, uma amiga me oferecia batom e eu não aceitava. Eu disse “não, obrigado”. Não era um simples “não” de quando te oferecem vodca, sendo que você não bebe, ou quando você “dá um fora” em alguém nada interessante na balada. Foi um “não” seguido de um “por quê não?” que ecoava mentalmente pelos dias seguintes.
Logo quando tive que morar sozinho, houve mudanças. Não só mudanças físicas, como também psicológicas. Passei a comer praticamente de tudo. A ouvir outros estilos musicais. Experimentar, beijar, chupar, tocar, engolir, gritar, soprar, raspar, esfregar, vomitar, perder o fôlego, cair, levantar, apoiar, cantar, gravar, filmar, pausar e silenciar.
(Fotografia: Lisandra Mendes - "A Beleza da Diversidade", 2017)
Ao poucos, fui me permitindo mudar, usar batom, pintar as unhas e a comprar roupas consideradas femininas. Eu faço isso porque eu acredito que as coisas não deveriam ser separadas dessa forma. Quero ter a liberdade de experimentar e descobrir quem eu sou. Eu ta…

Viver ou Morrer? Tanto Faz!

Não sei se todo mundo faz isso, mas eu me questiono quase que diariamente que motivos eu tenho pra continuar vivendo. Depois de ver 13 Reasons Why, essa prática se mostrou ainda mais importante, pois põe em discussão a questão do suicídio. Praticamente não ouvimos falar sobre este assunto, não se mostram reportagens e nem as pessoas que o comentem na TV, jornal ou internet. Mas o que eu gostaria de falar não é exatamente sobre suicídio. 
Em 2009, eu fazia curso técnico de manhã e terceiro ano à noite. Era uma sexta-feira, eu deveria estar estudando, mas naquele dia não houve aula, então fiquei feliz por poder dormir até tarde. Mas eu acordei cedo, era a polícia. Arma apontada pra minha cabeça. Eu não sabia direito que tava acontecendo, porque eu demoro algum tempo pra “acordar” de fato. Mas a polícia já tava dentro de casa.
Eu sentei no sofá enquanto eles vasculhavam minha casa, minhas coisas. Gavetas, roupeiro, cama, armários, geladeira, enfim, tudo. Eu não sabia o que eles queriam …

Piquenique das Cores e o Medo do Novo

Recentemente, fui pego de surpresa pela repercussão de uma simples atividade, um piquenique. Não sei ao certo o que as pessoas que criticaram pensaram sobre a atividade, mas houve uma grande resistência, o que provocou manifestações de ódio e apoio. O tema do piquenique é a luta contra LGBTfobia e pela visibilidade LGBT, uma pauta da juventude e dever do Poder Público, e que compõe a II Quinzena Estadual de Combate à LGBTfobia.


Antes mesmo de nascer, o médico já define nosso sexo,  segundo nossa genitália, recebemos um nome e, desde então, somos moldados conforme os costumes da nossa família e sociedade. Poderíamos viver tranquilamente o resto da vida, acreditando ser o que nos ensinaram a ser. Entretanto, algumas pessoas fogem do condicionamento e passam a duvidar de sua identidade, de sua construção social, e o conceito de "certo" e "errado", sobre seu corpo e sexualidade, cai por terra.
Todas essas mudanças causam desconforto, pois nos tiram da zona segura …