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Crônica: A coisa

A coisa gostava de perambular pela mata, floresta adentro, sempre à noite. A coisa nunca parava. Todas as noites a mesma coisa, procurava sua vítima fatal. Durante anos, a coisa ficou infiltrada nos matagais, bem longe da cidade. Até que um dia a coisa não encontrou mais vítimas. A coisa rastejando pela noite, suportando cada vez mais os primeiros raios solares, começou a se aproximar de nós... mortais. E depois de alguns meses a coisa já perambulava à margem do seu novo lar.

A coisa, meio pegajosa, bem viscosa, aderia-se as paredes de concreto, já durante o dia avistava os seus primeiros alvos. A coisa gostava de superfícies cerâmicas. O vidro era sua predileta. Ali ela ficava até que o primeiro alvo aparecesse. Assim que ele lhe direcionava os olhos, a coisa o pegava. Era fatal! Não tinha como resistir. A coisa era uma tentação insuportável. Ela te hipnotizava até você se entregar a ela. Aí, então a coisa te pegava! E te destruía, até não sobrar mais nenhum vestígio seu.

Naquele dia cinzento, não havia nada que lhe atribuísse um adjetivo em especial, além de cinzento. Sua vítima, de nome impresso em um cartão magnético qualquer, estava a se aproximar. A coisa sagaz, como sempre, avistou de longe sua presa. Era fácil demais. A vítima já tinha passado horas e mais horas sendo hipnotizada. Desde cedo. Bem cedo. A coisa, agora, travestida de vermelho vibrante, laço de fita, brilhante como diamantes, flutuando sobre um corpo desalmado.

Atacou sua vítima sem nenhuma chance de defesa. O cadáver continuava ali, em frente a uma loja, uma vitrina grande o bastante para a vendedora perceber e ir correndo atrás dele. A vendedora fez todo o procedimento, mas nada havia o que se fazer. Estava perdido. Finalizando todo o processo, as transações, assinada a certidão de óbito e acertado os detalhes finais, foi liberado para o enterro.

A coisa estava satisfeita, sua primeira vítima em tão pouco tempo, mas ainda não estava saciada, queria mais. Tinha cede e fome. Logo, ali perto, havia outra vítima fatal. A coisa desembestou a se camuflar de novo. Mais uma vítima, ainda não era suficiente. A coisa sempre saía impune e ainda vaga por aí. Sempre a procura de mais vítimas. A coisa consegue estar em qualquer lugar e é sobrevive ao tempo. Não se sabe ao certo seu tempo de vida ou morte. Só se sabe que ela sempre muda, cada hora é uma coisa e é por isso que chamam ela assim. Ela pode estar bem perto de você. 

Fuja!

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