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Era só mais um Silva!

Eu já quase morri várias vezes na vida. Uma delas foi quando capotamos de carro, graças a um gnomo que invadiu a pista, bem depois de uma curva. Mas de todas as vezes, eu sempre achei que não sobreviveria aos tempos de tormentos. Quando meu irmão era vivo. Eu sempre via, nos jornais e na TV, notícias de inocentes que era confundidos com traficantes ou com alguém que "deveria" ser apagado do mapa.

(Fonte: Globo.com)

Bom, naquela época eu ia na igreja e tinha bastante fé que as coisas ia melhorar. Felizmente, elas melhoraram. Outra coisa que eu sempre via na TV eram os depoimentos de pessoas que tinham se recuperado. Conseguiram se tornar independentes do crack. Eu pensei que meu irmão conseguira se salvar.

Uma coisa que aprendi é que as pessoas, dependentes de crack, costumam ter a autoestima muito baixa, e isso dificulta muito o tratamento. Acredito que não só com o crack, mas com outras dependências químicas ou não. Acho que até em relacionamento é assim. Muitas pessoas se afastaram, não só dele, mas também de todos nós, da família. É de se imaginar que a pessoa se sinta excluída, porque ela é.

Marginalizar. Tornar um indivíduo marginalizado. Deixar à margem. Jogar pra escanteio. Deixar de lado. Seria fácil se pudéssemos realmente deixar alguém à margem da sociedade. Colocar a pessoa numa cadeia e esquecê-la. Mandar pra marte. Porém, isso não é possível. Somo uma maiores populações carcerárias do mundo, nossas cadeias não tão resolvendo o problema. Um rápida pesquisa no Google e...


(Fonte: Google.com)

É chocante ver como naquela época ainda haviam pessoas dispostas a nos ajudar, mesmo a gente não podendo fazer o mesmo. Lembro-me dia que ia ter uma festinha de aniversário, numa quadra que ficava perto de casa. Meu irmão foi lá e roubou os doces na noite anterior e saiu distribuindo pelo bairro. Segundo ele, não era justo eles terem tantos doces e ele não ter nenhum. Confesso que os doces estavam deliciosos, mas eu não sabia que eram furtados.

No dia seguinte, como era de costume, alguém chamando no portão pra reclamar de alguma coisa, ou só pra meter uns tiro na gente mesmo. Eram os donos da festa, um casal gospel, que em vez de reclamar ou pedir os doces de volta, foram perguntar se a gente estava passando necessidade, precisando de alguma coisa. Ofereceram até cesta básica - podiam ter oferecido mais doces. Naquele momento, eu percebi que ainda existem pessoas boas no mundo. Contradizendo uma série de ações abomináveis chamadas de "justiça com as próprias mãos".





Não sei se alguém merece morrer, até porque todo mundo vai morrer, mas eu fico feliz de não ter morrido naquela época. Meu irmão não tinha terminado o ensino médio, assim suas oportunidades certamente foram reduzidas. Ele ainda teve a oportunidade de estudar, mas eu fico pensando em tantos outros que não tiveram. Ao olhar os dados do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) de 2012, e saber que 45,3% dos presidiários não terminaram o ensino fundamental reforça a ideia de que a educação é uma saída.


(Fonte: Instituto Avante Brasil, 2014.)


Enquanto em países desenvolvidos se discute o aumento da maioridade penal, em nosso país - emergente, queremos reduzi-la. Subentende-se que a cadeia irá diminuir a criminalidade e nos proporcionar maior segurança. Além de não haver dados que comprovem isso, se esquecem que um jovem recluso será solto um dia. A pergunta que fica é "em que parte da sociedade ele se encaixará?" ou "quais oportunidades há para um ex-detento?". É necessário punir, entretanto, também é necessário ressocializar este jovem. Esta parte, como fica claro, é bastante falha e merece atenção.



Investir em educação de qualidade, acessível, inclusiva, pluralista, que dialoga com a sociedade, pode ser uma saída. Porque nós sabemos que a cadeia não vai resolver o problema. Como dizem "bandido bom é bandido morto", mas quais bandidos são mortos e quais nunca viram as grades? Além disso, a redução abre portas para a venda de bebidas alcoólicas, cigarro e prostituição de menores. Eu acredito que nós podemos sonhar, assim como eu não virei uma estatística, consegui uma bolsa de estudos e fiz faculdade, eu acredito que muitos outros podem e devem conseguir também. Oportunidades. É o momento de discussão, reflexão, sem respostas prontas, respostas rápidas, na ponta da língua. É hora de pensar. De verdade.


Fontes: 

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