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Mostrando postagens de 2017

Expediente

Agência cheia, todos nos seus lugares, menos ele. Na mesa uma foto de Berlim. Fez a cobertura durante uma semana de um festival de pipas. Nos primeiros 4 dias ficou em um hotel de luxo, oferecido pelo festival. Nos outros dias, ficou numa espelunca bancada pela agência. Nem conexão com a internet tinha. Todo dia era a mesma coisa, metrô lotado, trem lotado, ônibus lotado. Só comia fast-food. Às vezes, não comia. Sentia-se magro demais. Culpa do restaurante novo, comida barata e nada saudável. Sua mãe dizia que aquilo era comida de cadeia.


Uma ligação. Sua avó tinha morrido. Pro interior, em um ônibus mais confortável, sua cabeça parecia se desprender. Um flash. Quando descobriu sua sexualidade, ela tinha sido a primeira a saber. Deu apoio e não contou pra ninguém da família. Família de descendência alemã. Porém nada Frei (livre). O celular vibrou, uma mensagem "se cuida, amor". Reclinou o assento, olhou pro céu, tornou-se imenso.

Poucos de preto, nada de filme americano. O si…

O Caso dos Limões

Estou aqui procurando uma sacola de lixo, preciso jogar fora esses limões. Eu poderia ter usado eles semana passada, quando uns amigos vieram aqui em casa. Poderíamos ter feito alguns drinks. Mas eu achei melhor guardar pra uma ocasião especial, afinal são mais caros que os sicilianos. Agora estão secos, apodrecidos e sem utilidade nenhuma. Talvez ainda sirvam como adubo, talvez eu os jogue no quintal.
("A beleza da diversidade" de Lisandra Mendes)
Quando eu penso em quintal, eu lembro daquela casa, de quando eu tinha 13 anos. Tinha um grande quintal e tínhamos um pé de acerola. Tinha cachorro, tinha céu estrelado, quando eu conseguia dormir com a janela aberta. Quando acreditava na bondade das pessoas e não tinha medo da maldade do mundo. O que resta agora? Viver trancafiado em um apartamento? Parece que quanto mais a gente cresce, mais sem graça vai ficando a vida.
Vivemos como se fossemos imortais. Desperdiçando nossos dias com coisas tão pequenas. Ou talvez sonhando tão…

Redescobrir

Claro que eu gostaria que não existissem gêneros, porém ignorá-los significa desconsiderar as desigualdades (sociais, econômicas, políticas, entre outras) que existem entre eles. É notório que, na sociedade, a mulher sempre está em desvantagem em relação ao homem. Quando você nasce e um médico já define o seu sexo, você é ensinado a ser um homem ou mulher. Se for menina, já sai do hospital com orelha furada e um enxoval rosa.

Como a gente vive numa sociedade cheia de regras e imposições, que ditam um comportamento masculino e outro feminino, eu sou “obrigado” a definir um certo comportamento ou objeto como sendo do universo masculino ou feminino. Como eu disse, eu gostaria que não houvesse essa separação, mas infelizmente há.
O que eu proponho, não é necessariamente redescobrir meu gênero ou sexualidade. Quero justamente dizer que qualquer homem cis ou não, heterossexual ou não, pode fazer o mesmo, sem que isso afete a forma como ele se vê ou se relacione afetivamente e sexualmente com…

Risqué

Desde que comecei a usar brincos, pintar minhas unhas, passar batom e me apropriar de tudo que é considerado feminino, algo estranho aconteceu. Eu acabei descobrindo minha masculinidade. Claro que quando falo de masculino e feminino, digo na forma padrão, como a sociedade constrói em nossas mentes. Um mulher de cabelos longos, maquiada, magra, de vestido ou saia, roupas rosa e feminina. Embora não seja este tipo de mensagem que quero passar, experimentar esta forma tornou-se importante para mim, contrapondo o padrão masculino em que fui construído.
("A beleza da diversidade" de Lisandra Mendes)
Desde pequeno, sou condicionado a não ser afeminado. Passei pelo bullying em família, na escola, faculdade, no grupo de amigos e, enfim, decidi “cagar” pra tudo isso. Não é algo fácil e nem tão simples. O que chamamos de “desconstrução” é um processo lento e delicado. Mas ele nos permite questionar coisas que nos foram impostas. Daí nasce a oportunidade de se apropriar do que antes e…

Eu Queria Ser Um Monstro

Há um ano, uma amiga me oferecia batom e eu não aceitava. Eu disse “não, obrigado”. Não era um simples “não” de quando te oferecem vodca, sendo que você não bebe, ou quando você “dá um fora” em alguém nada interessante na balada. Foi um “não” seguido de um “por quê não?” que ecoava mentalmente pelos dias seguintes.
Logo quando tive que morar sozinho, houve mudanças. Não só mudanças físicas, como também psicológicas. Passei a comer praticamente de tudo. A ouvir outros estilos musicais. Experimentar, beijar, chupar, tocar, engolir, gritar, soprar, raspar, esfregar, vomitar, perder o fôlego, cair, levantar, apoiar, cantar, gravar, filmar, pausar e silenciar.
(Fotografia: Lisandra Mendes - "A Beleza da Diversidade", 2017)
Ao poucos, fui me permitindo mudar, usar batom, pintar as unhas e a comprar roupas consideradas femininas. Eu faço isso porque eu acredito que as coisas não deveriam ser separadas dessa forma. Quero ter a liberdade de experimentar e descobrir quem eu sou. Eu ta…

Viver ou Morrer? Tanto Faz!

Não sei se todo mundo faz isso, mas eu me questiono quase que diariamente que motivos eu tenho pra continuar vivendo. Depois de ver 13 Reasons Why, essa prática se mostrou ainda mais importante, pois põe em discussão a questão do suicídio. Praticamente não ouvimos falar sobre este assunto, não se mostram reportagens e nem as pessoas que o comentem na TV, jornal ou internet. Mas o que eu gostaria de falar não é exatamente sobre suicídio. 
Em 2009, eu fazia curso técnico de manhã e terceiro ano à noite. Era uma sexta-feira, eu deveria estar estudando, mas naquele dia não houve aula, então fiquei feliz por poder dormir até tarde. Mas eu acordei cedo, era a polícia. Arma apontada pra minha cabeça. Eu não sabia direito que tava acontecendo, porque eu demoro algum tempo pra “acordar” de fato. Mas a polícia já tava dentro de casa.
Eu sentei no sofá enquanto eles vasculhavam minha casa, minhas coisas. Gavetas, roupeiro, cama, armários, geladeira, enfim, tudo. Eu não sabia o que eles queriam …

Piquenique das Cores e o Medo do Novo

Recentemente, fui pego de surpresa pela repercussão de uma simples atividade, um piquenique. Não sei ao certo o que as pessoas que criticaram pensaram sobre a atividade, mas houve uma grande resistência, o que provocou manifestações de ódio e apoio. O tema do piquenique é a luta contra LGBTfobia e pela visibilidade LGBT, uma pauta da juventude e dever do Poder Público, e que compõe a II Quinzena Estadual de Combate à LGBTfobia.


Antes mesmo de nascer, o médico já define nosso sexo,  segundo nossa genitália, recebemos um nome e, desde então, somos moldados conforme os costumes da nossa família e sociedade. Poderíamos viver tranquilamente o resto da vida, acreditando ser o que nos ensinaram a ser. Entretanto, algumas pessoas fogem do condicionamento e passam a duvidar de sua identidade, de sua construção social, e o conceito de "certo" e "errado", sobre seu corpo e sexualidade, cai por terra.
Todas essas mudanças causam desconforto, pois nos tiram da zona segura …

Traí Gilmar

Não tinha mais como segurar e tive que cortar cabelo. Trair Gilmar. Um ambiente bem simples. Quase tudo era do século passado. Tinha até um relógio com bordas de madeira. Tudo meio improvisado. E o que me chamou mais atenção foram algumas gambiarras, por exemplo: a cuba da pia era um balde. Nossa geração não está acostumada a consertar as coisas. É mais prático jogar fora e comprar um novo. Muitas vezes, o preço do conserto é quase o de comprar um novo.
A idade já era avançada. Acho que cheirava a tabaco. Tinha uma barriga saliente, às vezes, encostava no meu braço. Não tenho certeza se era só a barriga. Confesso que senti medo. Deixar um estranho deslizar uma navalha sobre sua carótida não é uma decisão fácil. Mais uma vez a tal da mudança querendo me intimidar. Deixei ele fazer o serviço. Acabou fazendo minha barba também. Fiquei preocupado, pois sou alérgico à lâminas de aço.

Ele usou até tesoura pra cortar meu cabelo. Gilmar nunca usava tesoura. Só máquina. Ele não pode saber que…

"Mamãe Pintou Meu Cabelo!"

Quando eu tava no terceiro ano do ensino médio, minha turma organizou uma visita ao Jequitibá Rosa, maior árvore nativa da mata atlântica brasileira. Acredita-se que o de Barra do Triunfo, em João Neiva, seja o maior do mundo. No dado passeio acabamos tirando muitas fotos. Até aquele momento eu costumava sair bem sério nas fotos, mas uma amiga conseguiu capturar um momento de muita alegria. Naquele dia, eu percebi que meu sorriso era bonito e passei a sorrir mais nas fotos. Havia descoberto que eu poderia ser bonito também.


Quando era criança, sempre via os cabelos lisos e até ondulados dos coleguinhas, e queria que o meu fosse igual. Minha mãe sempre fazia questão de cortar nossos cabelos com frequência. Quando eu chegava no barbeiro, ele sempre falava "seu cabelo tá curto ainda". Mas não tinha jeito, quando sua mãe manda fazer alguma coisa, é melhor obedecer. O curta Cores e Botas, de Juliana Vicente, expressa bem o que eu quero dizer. O que mais me dava raiva, era quando…

Homens Nunca Serão Feministas

Outro dia, conversando com uma amiga na mesa de um bar, entramos no assunto feminismo, em que muitas informações incoerentes são propagadas por mídias digitais afora, como o fato de feministas não se depilarem ou usarem o cabelo curto. Ora, se o feminismo veio para libertar as mulheres, elas que decidam se querem se depilar ou não, se querem cortar seu cabelo, usar saia, vestido ou roupa curta. Parece bem óbvio e até ridículo ter que explicar isso, mas a quantidade de piadas e de gente propagando estes rótulos é absurdamente alta.


Acredita-se que o patriarcado tenha se iniciado no período Neolítico (entre 12 mil e 4 mil a.C.), o que nos faz perceber como o machismo esta enraizado, presente desde a formação da nossa sociedade. A luta pelos direitos das mulheres, de igualdade em relação ao homem, que ganhou força nas última décadas é demasiadamente recente. Práticas machistas já estão inclusas em nosso cotidiano desde nosso nascimento, e são consideradas normais. Piadas. Abusos. Estup…

Nada Será Como Antes

Era um ano novo. Havia planos de passar com amigos em Vitória, mas acabei indo pra praia do interior mesmo. Quando era criança, ficava ansioso pelo verão. Quando colocávamos sunga de praia, aquele cheirinho de protetor, guarda-sol. Mas a imagem que mais me fascinava era quando nos aproximávamos da praia. Então, no horizonte, o mar ia se pintando de verde-água. Eu ficava fascinado. A cada passo, o mar aumentava. Parecia me engolir. Às vezes, tinha impressão de que ele sussurrava meu nome, como quem diz “esperei o ano todo só pra te ver, meu anjinho”. 

Depois, era o momento de pisar na areia. Areia quente. Queimava os pés se você não desse pulinhos em direção à sombra mais próxima. Não importava se queimava. Era gostoso. Às vezes, a dor leva ao prazer. Isso se este for maior. Sem fazer nenhuma cerimônia, corríamos em direção ao mar. Ele me correspondia presenteando-me com ondas mais suaves. Uma espuminha pra fazer cócegas. Mas tinha algo naquela relação que me incomodava. Era a areia n…

A Closeira do Maternal

Era mais um domingo e, como todo domingo, íamos à casa da minha avó. Ela fazia doces maravilhosos, entre eles o meu favorito que era cocada. Um ritual de infância, eu tinha meus 3 ou 4 anos. Lembro-me que nessa época comecei a frequentar o maternal. Logo no primeiro dia, eu fui super empolgado, de mãos dadas com mamãe, até o portão da escolinha. De repente, ela solta minha mão e fala pra eu entrar. Não só falou, como também me obrigou!
Naquele momento, eu percebi que teria que me virar sozinho. Não fiquei nem um pouco feliz. Colocaram-nos num refeitório, sentados à mesa. Deram-nos uma bola, dessas de soprar, pra ficar segurando. As crianças seguraram as bolas, meio que sem saber o que tava acontecendo. Nessa altura eu já estava chorando rios e cachoeiras. Quando me entregam minha bola eu já fui logo estourando. Olhei para o lado e estourei a bola do colega. Olhei para o outro para estourar a dele também, mas já tentavam me conter.
Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii 7 (meu ga…

Vivendo e Aprendendo a Jogar

O motor do carro estava batido, mas não era só ele que precisava de um conserto... coração também bate - no sentido do motor - e, às vezes, precisa de uma revisão, uma limpeza, alguém que cuide e dê carinho. Coração não é dessas coisas que se quebrar, a gente joga fora e compra um novo. Coração é ventilador antigo, daqueles de ferro, que vale a pena consertar. Trocar uma peça e botar pra rodar novamente. 
"Eu não sei como agir!". Não sei se era sobre o motor ou sobre o ventilador. Ele apenas disse ao acaso. Talvez esperando alguém responder algo do tipo "eu te entendo" ou "ligue pro guincho". Corpos tão perto, mas tão distante. Ninguém respondeu, só o vento.


Eu ficava o tempo todo me perguntando se seria possível continuar aquela viagem. “Até aonde a gente consegue ir?”. Eu perguntei, mas ele insistia em não ter a reposta. Não sei se já contei, mas éramos três – não a novela – éramos três: eu, ele e o vento. Bom, se formos contar as pessoas... havia uma …

Feijãozinho

Às vezes, eu penso que a vida é grande teste de paciência ou sei-lá-o-quê. Desde que comecei este blog tenho me sentido mais aliviado.  Outro dia fui ao shopping e esqueci de comprar incenso, mas também, eu fui pra resolver outros problemas. Não, não fui passear, nem frequentar a praça de alimentação. Detesto shopping. Eu poderia citar vários motivos, mas os cheiros misturados à essência do capitalismo, toda aquela gente andando pra uma lado e pra outro com sacolas de compras, tudo isso me deixa com vertigens.

Chegando em casa, desativei minha conta no Facebook. Devia ter sido a milésima vez que fazia isso. Acendi um último incenso. Aliás, o melhor incenso que já comprei, valeu cada centavo. Uma pena eu nunca mais tê-lo encontrado. Botei o feijão no fogo. Sentei-me à mesa. Abri um editor de texto e comecei a escrever "2016 foi um ano difícil, e como tudo que é difícil, endurece a gente, nos torna mais fortes e resistentes". 

Parece que a gente funciona como uma panela de …

Gilmar, o barbeiro

Mudanças são sempre difíceis, talvez pelo fato da insegurança que isso gera. Saímos de nossa zona de conforto e mergulhamos num mar de incertezas. Era a última sexta-feira do mês, da última semana do ano, do último mês do ano, do último ano da minha vida. Não, não era o último ano da minha vida, mas, como todos os outros, mais uma mudança. E não era só no sentido figurado, mudei de cidade e de emprego. Diria que até de amores, mas isso eu não posso afirmar.
Confesso que não foi uma decisão muito fácil e indolor. Digo isso porque até hoje não consegui dar essa notícia para o meu barbeiro, o Gilmar. Fui na intenção de contar tudo, abrir o jogo, era meu último corte com ele, mas na hora H eu não consegui. Dei pra trás. Fui fraco, confesso. Era demais pra mim. Quando ele começou a contar que ia mudar de salão, para um lugar maior e melhor, nossa! Foi de partir o coração. Não tenho sangue pra isso!
Gilmar veio de uma cidade pequena da Bahia, Crisópolis, segundo ele cidade hospedeira. Outro…