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Gilmar, o barbeiro

Mudanças são sempre difíceis, talvez pelo fato da insegurança que isso gera. Saímos de nossa zona de conforto e mergulhamos num mar de incertezas. Era a última sexta-feira do mês, da última semana do ano, do último mês do ano, do último ano da minha vida. Não, não era o último ano da minha vida, mas, como todos os outros, mais uma mudança. E não era só no sentido figurado, mudei de cidade e de emprego. Diria que até de amores, mas isso eu não posso afirmar.

Confesso que não foi uma decisão muito fácil e indolor. Digo isso porque até hoje não consegui dar essa notícia para o meu barbeiro, o Gilmar. Fui na intenção de contar tudo, abrir o jogo, era meu último corte com ele, mas na hora H eu não consegui. Dei pra trás. Fui fraco, confesso. Era demais pra mim. Quando ele começou a contar que ia mudar de salão, para um lugar maior e melhor, nossa! Foi de partir o coração. Não tenho sangue pra isso!

Gilmar veio de uma cidade pequena da Bahia, Crisópolis, segundo ele cidade hospedeira. Outro dia ele me contou que hospedou um desconhecido e quando amanheceu o dia, o cara tinha feito a limpa na casa. Gilmar tem um bom coração. Ele tá longe de casa já tem 10 anos e nas férias mandou o filho pra Bahia, pra ficar com os parentes. Às vezes, eu fico pensando se eu sou igual Gilmar. Mas eu não consigo abandonar minha cidade. Tô sempre lá e cá. Sou fraco. Apaixonado por onde vivo. Passo raiva? Passo.

Preciso voltar no Gilmar de novo, o tempo passa rápido e preciso de outro corte. O salão da mulher dele fica ao lado, ele até me levou pra conhecer. Tem ar, cafézinho e doce pros clientes. O de Gilmar já é mais simples, e única coisa que chama atenção é um punhado de pen drive com músicas pra vender. Ele gosta muito de conversar, talvez ele pense que eu estou entediado quando me calo, mas eu confio tanto nele que me distraio e nem percebo a lâmina afiada bailando sobre minha carótida. Se eu me perco no silêncio, distraído com seu pote de lâminas descartadas, ele não para de acertar o corte. Só para se eu disser "agora está bom".

Gilmar é um cara trabalhador, por isso vou sempre nele. É sempre um novo causo. Como o dia em que ele tava me contado sobre o pastor da igreja ao lado. O pastor apareceu logo depois. Ou de quando foi atender um cliente que estava acamado no hospital. Até do dia que um carro explodiu na avenida lá perto e - segundo ele -  o salão estremeceu. Tenho narrado este dilema, de mudanças. Sinto que até me torno redundante. Repetitivo. Tentando me justificar a cada frase. Talvez seja a crise dos vinte e poucos. O fato é que “o novo sempre vem”, com diria Elis. E a gente vai se adaptando. Aí de quem não consegue! Eu só não consegui ainda contar pra Gilmar.


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