Pular para o conteúdo principal

Traí Gilmar


Não tinha mais como segurar e tive que cortar cabelo. Trair Gilmar. Um ambiente bem simples. Quase tudo era do século passado. Tinha até um relógio com bordas de madeira. Tudo meio improvisado. E o que me chamou mais atenção foram algumas gambiarras, por exemplo: a cuba da pia era um balde. Nossa geração não está acostumada a consertar as coisas. É mais prático jogar fora e comprar um novo. Muitas vezes, o preço do conserto é quase o de comprar um novo.

A idade já era avançada. Acho que cheirava a tabaco. Tinha uma barriga saliente, às vezes, encostava no meu braço. Não tenho certeza se era só a barriga. Confesso que senti medo. Deixar um estranho deslizar uma navalha sobre sua carótida não é uma decisão fácil. Mais uma vez a tal da mudança querendo me intimidar. Deixei ele fazer o serviço. Acabou fazendo minha barba também. Fiquei preocupado, pois sou alérgico à lâminas de aço.

Ele usou até tesoura pra cortar meu cabelo. Gilmar nunca usava tesoura. Só máquina. Ele não pode saber que eu fui em outro barbeiro. Tenho que arrumar uma boa desculpa pra estar sumido. Vi um monte de gente conhecida passando pela rua. Quase cochilei. Ele terminou, não me cobrou pela barba. Saí satisfeito. Cheguei em casa, passei uma pomada antialérgica. Um vinho meia-boca. Músicas aleatórias. Talvez eu deva voltar lá. Talvez eu deva abrir o jogo com Gilmar.

Postagens mais visitadas deste blog

Piquenique das Cores e o Medo do Novo

Recentemente, fui pego de surpresa pela repercussão de uma simples atividade, um piquenique. Não sei ao certo o que as pessoas que criticaram pensaram sobre a atividade, mas houve uma grande resistência, o que provocou manifestações de ódio e apoio. O tema do piquenique é a luta contra LGBTfobia e pela visibilidade LGBT, uma pauta da juventude e dever do Poder Público, e que compõe a II Quinzena Estadual de Combate à LGBTfobia.


Antes mesmo de nascer, o médico já define nosso sexo,  segundo nossa genitália, recebemos um nome e, desde então, somos moldados conforme os costumes da nossa família e sociedade. Poderíamos viver tranquilamente o resto da vida, acreditando ser o que nos ensinaram a ser. Entretanto, algumas pessoas fogem do condicionamento e passam a duvidar de sua identidade, de sua construção social, e o conceito de "certo" e "errado", sobre seu corpo e sexualidade, cai por terra.
Todas essas mudanças causam desconforto, pois nos tiram da zona segura …

Só porque eu vim da roça!

Fui pra roça, um dia desses, e percebi como as coisas lá são mais simples. Não apenas pela ausência de tecnologia, até porque lá tem quase tudo que a gente precisa. Bom, digo "quase", pois já me acostumei com toda minha parafernália, não só as tecnológicas, mas também a parte cultural - danceteria. Mas não foi só a roça que me ensinou algumas coisas, a vida tem me dado pequenas lições que acho válido compartilhar.
(Imagem: Arquivo pessoal)
A simplicidade da roça vai desde as roupas simples, até o estilo de vida menos corrido, porém, não menos esforçado. A fala simples, sem muita firula, nada de linguagem formal, ninguém corrigindo seu português ou a pronúncia correta do inglês. Bebidas artesanais. Capelete. Fogão a lenha. Vacas. Trator. Cheiro de bosta fresca misturado com mato molhado.
Aprendi que não vale a pena discutir com todo mundo. Algumas pessoas simplesmente não estão dispostas a mudar de opinião. Desconsideram fatos, provas, pesquisas e evidências. Não gastarei ma…

Gilmar, o barbeiro

Mudanças são sempre difíceis, talvez pelo fato da insegurança que isso gera. Saímos de nossa zona de conforto e mergulhamos num mar de incertezas. Era a última sexta-feira do mês, da última semana do ano, do último mês do ano, do último ano da minha vida. Não, não era o último ano da minha vida, mas, como todos os outros, mais uma mudança. E não era só no sentido figurado, mudei de cidade e de emprego. Diria que até de amores, mas isso eu não posso afirmar.
Confesso que não foi uma decisão muito fácil e indolor. Digo isso porque até hoje não consegui dar essa notícia para o meu barbeiro, o Gilmar. Fui na intenção de contar tudo, abrir o jogo, era meu último corte com ele, mas na hora H eu não consegui. Dei pra trás. Fui fraco, confesso. Era demais pra mim. Quando ele começou a contar que ia mudar de salão, para um lugar maior e melhor, nossa! Foi de partir o coração. Não tenho sangue pra isso!
Gilmar veio de uma cidade pequena da Bahia, Crisópolis, segundo ele cidade hospedeira. Outro…