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Traí Gilmar


Não tinha mais como segurar e tive que cortar cabelo. Trair Gilmar. Um ambiente bem simples. Quase tudo era do século passado. Tinha até um relógio com bordas de madeira. Tudo meio improvisado. E o que me chamou mais atenção foram algumas gambiarras, por exemplo: a cuba da pia era um balde. Nossa geração não está acostumada a consertar as coisas. É mais prático jogar fora e comprar um novo. Muitas vezes, o preço do conserto é quase o de comprar um novo.

A idade já era avançada. Acho que cheirava a tabaco. Tinha uma barriga saliente, às vezes, encostava no meu braço. Não tenho certeza se era só a barriga. Confesso que senti medo. Deixar um estranho deslizar uma navalha sobre sua carótida não é uma decisão fácil. Mais uma vez a tal da mudança querendo me intimidar. Deixei ele fazer o serviço. Acabou fazendo minha barba também. Fiquei preocupado, pois sou alérgico à lâminas de aço.

Ele usou até tesoura pra cortar meu cabelo. Gilmar nunca usava tesoura. Só máquina. Ele não pode saber que eu fui em outro barbeiro. Tenho que arrumar uma boa desculpa pra estar sumido. Vi um monte de gente conhecida passando pela rua. Quase cochilei. Ele terminou, não me cobrou pela barba. Saí satisfeito. Cheguei em casa, passei uma pomada antialérgica. Um vinho meia-boca. Músicas aleatórias. Talvez eu deva voltar lá. Talvez eu deva abrir o jogo com Gilmar.

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