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Vivendo e Aprendendo a Jogar

O motor do carro estava batido, mas não era só ele que precisava de um conserto... coração também bate - no sentido do motor - e, às vezes, precisa de uma revisão, uma limpeza, alguém que cuide e dê carinho. Coração não é dessas coisas que se quebrar, a gente joga fora e compra um novo. Coração é ventilador antigo, daqueles de ferro, que vale a pena consertar. Trocar uma peça e botar pra rodar novamente. 

"Eu não sei como agir!". Não sei se era sobre o motor ou sobre o ventilador. Ele apenas disse ao acaso. Talvez esperando alguém responder algo do tipo "eu te entendo" ou "ligue pro guincho". Corpos tão perto, mas tão distante. Ninguém respondeu, só o vento.


Eu ficava o tempo todo me perguntando se seria possível continuar aquela viagem. “Até aonde a gente consegue ir?”. Eu perguntei, mas ele insistia em não ter a reposta. Não sei se já contei, mas éramos três – não a novela – éramos três: eu, ele e o vento. Bom, se formos contar as pessoas... havia uma terceira pessoa, mas eu a desconsiderarei. Se nos cálculos eu posso desprezar o atrito, então desconsiderarei a terceira pessoa para evitar atritos.

A vida sempre tem dessas coisas, de uma terceira pessoa.

Saímos do carro e nos entregamos ao vento. Acenei para o primeiro carro e fui embora. Era melhor eu ir, antes que meu coração batesse como o motor. Sabe, eu me cobro bastante essa coisa de ter resposta pra tudo. As pessoas dizem que não preciso saber ou entender. Basta seguir. Mas o problema é que só isso não me convence. Não me satisfaz.

A busca por uma resposta, antes mesmo de ter uma pergunta, sempre me tirou o sono. Bom, na verdade, nunca me tirou o sono, porque nada nessa vida consegue me tirar o sono. Eu sou um daqueles abençoados – ou não – que consegue dormir até mesmo dormindo. A verdade – a minha verdade – é que as pessoas querem SIM uma resposta pra tudo.

Ora! Se, por acaso, eu disser algo aleatório como “pássaros vermelhos queimam chinelos num oceano rosa”, ninguém vai entender nada e logo me perguntarão “Você tá louco” ou “Que isso, cara?”. Eles querem uma resposta. Eles não entendem. E eu não sou diferente. Eu também não entendo.

Pegar carona é praticar o ato do desapego. Você entra num carro, conversa com a pessoa, diz pra onde vai, talvez até conte sobre seus planos, certamente falará sobre sua vida, seus problemas - um drama... quem sabe? – e depois... Bom, depois nunca mais verá aquela pessoa novamente. Ela não te passará seu telefone, nem o e-mail pessoal. Você também não pedirá pra adicionar em nenhuma rede social. Melhor que tudo acabe ali. Você não vai querer prolongar este sofrimento, vai?

Eu sofro porque me apego muito rápido às pessoas.

Porque ela continuará sua viagem. Temos que continuar.


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