Pular para o conteúdo principal

Viver ou Morrer? Tanto Faz!

Não sei se todo mundo faz isso, mas eu me questiono quase que diariamente que motivos eu tenho pra continuar vivendo. Depois de ver 13 Reasons Why, essa prática se mostrou ainda mais importante, pois põe em discussão a questão do suicídio. Praticamente não ouvimos falar sobre este assunto, não se mostram reportagens e nem as pessoas que o comentem na TV, jornal ou internet. Mas o que eu gostaria de falar não é exatamente sobre suicídio. 

Em 2009, eu fazia curso técnico de manhã e terceiro ano à noite. Era uma sexta-feira, eu deveria estar estudando, mas naquele dia não houve aula, então fiquei feliz por poder dormir até tarde. Mas eu acordei cedo, era a polícia. Arma apontada pra minha cabeça. Eu não sabia direito que tava acontecendo, porque eu demoro algum tempo pra “acordar” de fato. Mas a polícia já tava dentro de casa.

Eu sentei no sofá enquanto eles vasculhavam minha casa, minhas coisas. Gavetas, roupeiro, cama, armários, geladeira, enfim, tudo. Eu não sabia o que eles queriam e uma voz na minha cabeça disse “é bom você parecer que não sabe mesmo”. Deu certo, me olhavam com pena, mas eu não sabia se ficava feliz ou enojado.

Ilustração: Ederson Baptista, 2017.

Dias antes, acordei – novamente – com gritos “Dudu! Dudu!”. Eu prontamente respondi “Dudu tá qui não”. E, então, a voz respondeu “eu vou botar fogo com vocês aí dentro”. Eu me assustei, liguei pra polícia e eles disseram que não poderiam atender a ocorrência. Estavam ocupados. Não tinham viaturas disponíveis. Eu fiquei em choque. Como assim? Tem um cara dizendo que vai me queimar vivo e a polícia não pode me ajudar? Liguei para minha mãe. Ela saiu do trabalho e foi até à delegacia e os fez irem até lá em casa.

Naquela sexta, a polícia tava lá, mas não era pra me ajudar. Quando você tem uma arma apontada pra sua cabeça algumas vezes, você meio que começa a não ter mais tanto medo. Vida e morte tornam-se algo tão banal. O que acontecer aconteceu. Eu tinha perdido o medo de morrer e isso foi bem triste. Não importava o que acontecesse, eu só queria que acabasse logo. Porque essas não foram as únicas vezes que fui ameaçado. 

No fim, os estudos me ajudaram bastante, deixaram minha mente livre da depressão e do suicídio. E aos poucos eu fui percebendo as coisas que me faziam ter vontade de viver: meus amigos, os momentos de diversão, as risadas, um bolo de cenoura com cobertura de chocolate, uma broa de milho com coco da mamãe, uma paixão adolescente, minha família, meu cachorro, um presentinho inesperado, decoração de natal, acompanhar uma criança crescer, tirar a casquinha do machucado, minha vó gritando do outro lado do muro ou a polenta com galinha servida no recreio da escola. Enfim, um pouco de tudo, pequenas coisas que fazem nossos dias especiais.


Postagens mais visitadas deste blog

Piquenique das Cores e o Medo do Novo

Recentemente, fui pego de surpresa pela repercussão de uma simples atividade, um piquenique. Não sei ao certo o que as pessoas que criticaram pensaram sobre a atividade, mas houve uma grande resistência, o que provocou manifestações de ódio e apoio. O tema do piquenique é a luta contra LGBTfobia e pela visibilidade LGBT, uma pauta da juventude e dever do Poder Público, e que compõe a II Quinzena Estadual de Combate à LGBTfobia.


Antes mesmo de nascer, o médico já define nosso sexo,  segundo nossa genitália, recebemos um nome e, desde então, somos moldados conforme os costumes da nossa família e sociedade. Poderíamos viver tranquilamente o resto da vida, acreditando ser o que nos ensinaram a ser. Entretanto, algumas pessoas fogem do condicionamento e passam a duvidar de sua identidade, de sua construção social, e o conceito de "certo" e "errado", sobre seu corpo e sexualidade, cai por terra.
Todas essas mudanças causam desconforto, pois nos tiram da zona segura …

Eu Queria Ser Um Monstro

Há um ano, uma amiga me oferecia batom e eu não aceitava. Eu disse “não, obrigado”. Não era um simples “não” de quando te oferecem vodca, sendo que você não bebe, ou quando você “dá um fora” em alguém nada interessante na balada. Foi um “não” seguido de um “por quê não?” que ecoava mentalmente pelos dias seguintes.
Logo quando tive que morar sozinho, houve mudanças. Não só mudanças físicas, como também psicológicas. Passei a comer praticamente de tudo. A ouvir outros estilos musicais. Experimentar, beijar, chupar, tocar, engolir, gritar, soprar, raspar, esfregar, vomitar, perder o fôlego, cair, levantar, apoiar, cantar, gravar, filmar, pausar e silenciar.
(Fotografia: Lisandra Mendes - "A Beleza da Diversidade", 2017)
Ao poucos, fui me permitindo mudar, usar batom, pintar as unhas e a comprar roupas consideradas femininas. Eu faço isso porque eu acredito que as coisas não deveriam ser separadas dessa forma. Quero ter a liberdade de experimentar e descobrir quem eu sou. Eu ta…

Aquela Sobre Aquela Do Verão

Todo ano, tenho que contar nos dedos quanto tempo faz que minha mãe morreu. Daqui há alguns dias já faz seis anos. Achei engraçado reler um texto em que relatava os acontecimentos do dia em que ela se foi. Não lembrava mais dos detalhes. Aos poucos, um borrão branco vai sendo criado no lugar das lembranças. Pensando bem, foi até uma boa ter escrito aquele texto.

De fato, muita coisa mudou. Não julgo ser ruim, é algo natural da vida. Tudo muda, as músicas, a política, a cultura, as tecnologias, e principalmente as pessoas mudam. O verão veio e foi diferente também. Comecei em uma nova casa, longe o suficiente para não pirar com as pessoas tentando me reconfortar, mas não tão longe a ponto de estar longe da família e amigos.
Acreditei que poderia passar o resto da vida comendo fast-food, mas logo percebi que não dava. Morando em uma espécie de república, aprendi a cozinhar com os outros moradores. Comecei com arroz, depois veio o feijão, que me dava um pouco de medo, por causa da panel…