Pular para o conteúdo principal

No Embalo da Cocaína

(Imagem: Arquivo Pessoal)

Eu sempre gostei de acordar tarde, mas, infelizmente, eu quase sempre estudei de manhã. No primeiro ano do ensino médio, eu pude estudar à tarde. Era uma manhã comum, eu dormia na parte de cima de uma beliche. Acordei ouvindo uma discussão. Era minha mãe dando uma bronca no meu irmão, perguntando o porquê dele ter feito aquilo. Meu irmão dizia que estava trazendo droga pra cidade, daí ele viu a polícia e jogou tudo num rio.

No começo, a gente não acredita que um irmão ou um filho esteja envolvido com drogas. Depois que você aceita que a pessoa esta envolvida, você pensa "mas ele só vende, não usa". Até minha mãe aceitar este fato, levou bastante tempo. Bom, com o tempo as coisas foram mudando. Meus pais trabalhavam o dia todo, minha mãe só chegava depois das 15h e meu pai à noite. Eu nunca fui de brincar na rua, já meu irmão não saía de lá.

A primeira vez que vi meu irmão mexendo com aquilo, ele estava embalando um pó branco em papelotes. Ele e uns amigos. Todos tossiam. Eu não sabia o que era, mas também senti vontade de tossir. Resolvi ir pra escola mais cedo. Ele também fazia pipas, ele era bom nisso. Sempre aparecia alguém lá em casa, chamando "Dudu!", para para comprar pipa, trocar figurinha ou para sair. Ele sempre foi o mais popular e mais simpático. Na família, ele era mais querido, já que eu sempre fiquei na minha.

Com o tempo, as pessoas que chamavam por Dudu foram mudando. Não eram mais pra comprar pipa. Gente estranha, eu tinha medo. Ele falava para eu dizer que ele não estava. Às vezes, não tinha jeito, ele ia atender. Quando ele voltava, estava meio sujo e machucado. Para fugir disso, comecei a ir pra escola mais cedo, mas as aulas não começam cedo. Foi, então que passei a frequentar a biblioteca até dar o horário da aula. Na biblioteca tomei gosto pela leitura. E assim foi meu primeiro ano no ensino médio.

Postagens mais visitadas deste blog

Aquela Sobre Aquela Do Verão

Todo ano, tenho que contar nos dedos quanto tempo faz que minha mãe morreu. Daqui há alguns dias já faz seis anos. Achei engraçado reler um texto em que relatava os acontecimentos do dia em que ela se foi. Não lembrava mais dos detalhes. Aos poucos, um borrão branco vai sendo criado no lugar das lembranças. Pensando bem, foi até uma boa ter escrito aquele texto.

De fato, muita coisa mudou. Não julgo ser ruim, é algo natural da vida. Tudo muda, as músicas, a política, a cultura, as tecnologias, e principalmente as pessoas mudam. O verão veio e foi diferente também. Comecei em uma nova casa, longe o suficiente para não pirar com as pessoas tentando me reconfortar, mas não tão longe a ponto de estar longe da família e amigos.
Acreditei que poderia passar o resto da vida comendo fast-food, mas logo percebi que não dava. Morando em uma espécie de república, aprendi a cozinhar com os outros moradores. Comecei com arroz, depois veio o feijão, que me dava um pouco de medo, por causa da panel…

Risqué

Desde que comecei a usar brincos, pintar minhas unhas, passar batom e me apropriar de tudo que é considerado feminino, algo estranho aconteceu. Eu acabei descobrindo minha masculinidade. Claro que quando falo de masculino e feminino, digo na forma padrão, como a sociedade constrói em nossas mentes. Um mulher de cabelos longos, maquiada, magra, de vestido ou saia, roupas rosa e feminina. Embora não seja este tipo de mensagem que quero passar, experimentar esta forma tornou-se importante para mim, contrapondo o padrão masculino em que fui construído.
("A beleza da diversidade" de Lisandra Mendes)
Desde pequeno, sou condicionado a não ser afeminado. Passei pelo bullying em família, na escola, faculdade, no grupo de amigos e, enfim, decidi “cagar” pra tudo isso. Não é algo fácil e nem tão simples. O que chamamos de “desconstrução” é um processo lento e delicado. Mas ele nos permite questionar coisas que nos foram impostas. Daí nasce a oportunidade de se apropriar do que antes e…