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A Confiança é uma Navalha!


Como quando a gente vai ao barbeiro, cortar cabelo ou fazer a barba, na vida passamos por vários testes de confiança. Digo isso porque outro dia, quando fui cortar o cabelo, percebi que já havia muito tempo que ia no mesmo barbeiro. Mesmo com uma idade avançada, e com alguns sinais de Alzheimer, ele ainda dominava a tesoura e a navalha. Percebi que a navalha afiada deslizava sobre minha pele, o suficiente para atingir uma artéria. Eu gosto das minhas artérias, principalmente das carótidas.

Toda vez que vou cortar o cabelo, ele poderia me matar. Não o cabelo, o barbeiro. Cada corte é uma oportunidade, mas ele nunca tentou nada. Eu até gosto dele. Do meu cabelo. Nem acho que tentaria, confio nele. No barbeiro. Quem me garante que ele, o barbeiro, num surto psicótico, num instante de tempo em que segura a navalha, não corte minha gargante, fazendo com que jorre sangue por toda parte? 

O sangue molharia minha camisa nova, meus sapatos, sua bancada, a toalha que envolve meu pescoço, os espelhos, escorreria pelo chão e terminaria na calçada. Muitos curiosos se aproximariam. Outros tirariam fotos, postariam em suas redes sociais, fingindo estar chocados ou indignado, mas, no fundo, estariam se deliciando com minha barbárie. Urubus. Abutres. Sou eu ali jogado. Odeio vocês! Não me respeitam nem depois de morto. Gente sem coração!

Mais frágeis do que cristal são as pessoas. Infelizmente ou felizmente, temos que confiar nelas, principalmente nos barbeiros. E em todos que tiverem uma navalha. Certamente, elas quebrarão esse frágil sentimento que é a confiança. As pessoas, não as navalhas. Alguns podem até recuperar, outros simplesmente não conseguirão reconquistá-la. A confiança. A vida é isso, ou a gente vive ou vegeta. Não o do Dragon Ball. Mesmo sabendo da possibilidade de ter uma artéria cortada, confiemos uns nos outros. E, assim, segue a vida.

Dica: Nunca use camisa nova para ir ao barbeiro. Evite contaminações, exija uma navalha nova.

Créditos
Fotografia: Protection, Emilene Miossi. São Paulo, junho de 2014.
Inspirado no texto de Marta Medeiros publicado na página Ampliando o Olhar.

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