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"Mamãe Pintou Meu Cabelo!"

Quando eu tava no terceiro ano do ensino médio, minha turma organizou uma visita ao Jequitibá Rosa, maior árvore nativa da mata atlântica brasileira. Acredita-se que o de Barra do Triunfo, em João Neiva, seja o maior do mundo. No dado passeio acabamos tirando muitas fotos. Até aquele momento eu costumava sair bem sério nas fotos, mas uma amiga conseguiu capturar um momento de muita alegria. Naquele dia, eu percebi que meu sorriso era bonito e passei a sorrir mais nas fotos. Havia descoberto que eu poderia ser bonito também.


Quando era criança, sempre via os cabelos lisos e até ondulados dos coleguinhas, e queria que o meu fosse igual. Minha mãe sempre fazia questão de cortar nossos cabelos com frequência. Quando eu chegava no barbeiro, ele sempre falava "seu cabelo tá curto ainda". Mas não tinha jeito, quando sua mãe manda fazer alguma coisa, é melhor obedecer. O curta Cores e Botas, de Juliana Vicente, expressa bem o que eu quero dizer. O que mais me dava raiva, era quando a gente passava na frente de uma casa que tinha macacos e mamãe dizia "olha lá seus priminhos". Até hoje eu mantenho um certo asco por macacos.


Eu me lembro que, na terceira série, a onda do momento era pintar (descolorir) os cabelos com água oxigenada e amônia. Você facilmente comprava estes dois produtinhos na farmácia e preparava uma misturinha. Um dia eu inventei de pedir ajuda ao meu irmão mais velho. Ele fez todo o trabalho. Senti um formigamento na cabeça. Esperei o tempo. Enxaguei. Fui até o banheiro olhar o resultado. Tranquei-me no quarto e chorei. Não chorei só porque tinha ficado ruim, mas porque já previa o bullying na escola.

Já fui pra escola chorando e pus a culpa toda na minha mãe. "Mamãe pintou meu cabelo!" eu dizia, entre um soluço e outro. Sempre tive muita vergonha da minha aparência, sobretudo do meu cabelo. Cabelo de pico. Não é cabelo bom. E agora, além de pico era loiro. Meus colegas ficaram com tanta pena de mim que nem se quer riram. Na verdade, riram sim, mas tentaram disfarçar. Ainda me motivaram a voltar pra aula, pois eu já estava dando meia volta. Até a professora me ajudou e falou que seus sobrinho sempre pintavam o cabelo, que todo mundo achava bonito. Aliás, ela é minha amiga até hoje.


Bom, posso dizer que hoje já não penso mais assim. Tenho uma autoestima até que elevada. Aos poucos a gente vai descobrindo que tudo que gente "acha" é fruto de um condicionamento. O mercado da beleza é poderosíssimo e para você se encaixar nele é preciso desembolsar muito dinheiro. Fica claro o motivo de se criar um padrão. Atender aos interesses de uma minoria. Só que esse condicionamento vem desde cedo e não é tão fácil assim mudar de opinião. Eu fico feliz, pois vejo cada vez mais amigas deixando a chapinha e o formol de lado e assumindo seus cachos. Claro que com tanta demanda para cachos, acabou-se fortalecendo outro padrão. Criou-se zilhões de produtos para se ter os "cachos perfeitos". É um caminho longo, mas acho que já demos o primeiro passo.


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