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Nada Será Como Antes

Era um ano novo. Havia planos de passar com amigos em Vitória, mas acabei indo pra praia do interior mesmo. Quando era criança, ficava ansioso pelo verão. Quando colocávamos sunga de praia, aquele cheirinho de protetor, guarda-sol. Mas a imagem que mais me fascinava era quando nos aproximávamos da praia. Então, no horizonte, o mar ia se pintando de verde-água. Eu ficava fascinado. A cada passo, o mar aumentava. Parecia me engolir. Às vezes, tinha impressão de que ele sussurrava meu nome, como quem diz “esperei o ano todo só pra te ver, meu anjinho”. 


Depois, era o momento de pisar na areia. Areia quente. Queimava os pés se você não desse pulinhos em direção à sombra mais próxima. Não importava se queimava. Era gostoso. Às vezes, a dor leva ao prazer. Isso se este for maior. Sem fazer nenhuma cerimônia, corríamos em direção ao mar. Ele me correspondia presenteando-me com ondas mais suaves. Uma espuminha pra fazer cócegas. Mas tinha algo naquela relação que me incomodava. Era a areia na cueca depois de brincar por horas junto às ondas do mar.

De tanto levar caldos, ficávamos com um gosto água salgada na boca. Nessas horas, surgia o carrinho de picolé. “Ooooolha o picooooleeeeé!”. E a gente respondia “Água pura ninguém quer”, mas a gente queria. Algumas vezes levava um isoporzinho com água, frutas e suco. Depois do picolé, vinha o carrinho do milho. Não poderia me esquecer dos óculos piratas. Lembro-me de ganhar um todo laranja. Eu comecei a tropeçar e a andar como se tivesse em Marte, pois tudo parecia deslocado e alaranjado. Coisas de lente pirata. Eu queimando a retina e achando que tava arrasando.
Era um ano novo. Havia planos de passar com amigos em Vitória, mas acabei indo pra praia mesmo, mas dessa vez passei o verão sozinho. O mar já não me impressionava. A mistura da água salgada com a areia grudando em meu corpo, como em um bife à milanesa, era engasturante. Eu levei alguns dias para descer até a orla. Não comprei picolé, nem milho. Disseram que não é bom comer comida de ambulante na praia, podem estar contaminadas. Passei longe dos óculos piratas. Passou na TV que faz mal pros olhos. 

Livro meia-boca. Latinha de cerveja quente. Ao menos o prazer no cheirinho de protetor ficou preservado. Agora eu já não usava mais sunga; mas, bermuda. Os óculos de marca eram usados para apreciar, discretamente, os volumes alheios. O izoporzinho acomodava cerveja e catuaba. Apesar das mudanças, o mar ainda me reconhecia e toda vez que eu me aproximava dizia “esperei o ano todo pra te ver, meu anjinho”.

Fotos: Barra do Sahy, Aracruz - ES.

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