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Eu Queria Ser Um Monstro

Há um ano, uma amiga me oferecia batom e eu não aceitava. Eu disse “não, obrigado”. Não era um simples “não” de quando te oferecem vodca, sendo que você não bebe, ou quando você “dá um fora” em alguém nada interessante na balada. Foi um “não” seguido de um “por quê não?” que ecoava mentalmente pelos dias seguintes.

Logo quando tive que morar sozinho, houve mudanças. Não só mudanças físicas, como também psicológicas. Passei a comer praticamente de tudo. A ouvir outros estilos musicais. Experimentar, beijar, chupar, tocar, engolir, gritar, soprar, raspar, esfregar, vomitar, perder o fôlego, cair, levantar, apoiar, cantar, gravar, filmar, pausar e silenciar.

(Fotografia: Lisandra Mendes - "A Beleza da Diversidade", 2017)

Ao poucos, fui me permitindo mudar, usar batom, pintar as unhas e a comprar roupas consideradas femininas. Eu faço isso porque eu acredito que as coisas não deveriam ser separadas dessa forma. Quero ter a liberdade de experimentar e descobrir quem eu sou. Eu também gosto de ver a cara de espanto das pessoas quando me veem usando batom. Por que somos ensinados, mesmo que implicitamente, a odiar o feminino?

Durante um tempo, eu me senti um monstro, como no filme “Eu queria ser um monstro”, de Marão, ou meio um Frankenstein, não por ser um antagonista, embora eu os considere injustiçados, mas por não se adaptarem ao meio em que vivem. São estranhos. É uma saga de autoconhecimento. Sem culpa. Sem remorso. Sem pecado.

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