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Aquela da Beesha Preta Terrorista

bixa estranha
louca, preta, da favela
quando ela tá passado
todos riem da cara dela, mas
se liga macho, presta muita atenção
SENTA E OBSERVA A TUA DESTRUIÇÃO!


Os versos são de Linn da Quebrada. Pra quem não a conhece, podem chamá-la de “bixa preta terrorista”. Quebrando tabus e utilizando seu corpo e a música como uma forma de contestação, desde 2016, ela faz um terrorismo com os versos. E é bom ver que temos pessoas na mídia que conseguem nos representar. Isto se chama visibilidade.


Queremos destruir o homem. Não é uma destruição no sentido de jogar uma bomba ou dar um tiro em alguém. Nem jogar praga ou destruir famílias. Queremos a destruição do homem que, de geração em geração, oprime, desemprega, exclui, agride, xinga, esfaqueia, rasga, queima e mata cada uma de nós. Todos os dias. O Brasil é o país que mais mata travesti no mundo. 

A bixa preta ainda tem o racismo para encarar. As manas têm o machismo. Não tá fácil. Mas calma. Errado é homem andar de mão dada com outro homem, ou mulher beijar mulher, em público. Desde que decidi me apropriar de maquiagens e roupas ditas femininas, tenho me sentido muito bem. Admiro cada olhar de choque. Uns riem, outros elogiam. Fico feliz em poder provocar. Comecei só com o batom, agora já uso praticamente tudo. Alguns amigos me incentivam a virar drag, mas minha proposta é diferente. 

Eu não sou uma personagem. Visto-me assim o tempo todo. No meu trabalho, todo mundo já acha bem comum e, por mais esquisita que seja a maquiagem do dia, ninguém estranha mais. Quando passo pelo comércio “de homem”, muitos me cobram a falta dos brincos ou do batom. Minha família também é bem tranquila, inclusive pego roupas emprestadas com minha tia, que já me deu vários brincos e acessórios. 

Um amigo me perguntou se eu me considerava mulher. Eu disse que não. Nem homem. Nem mulher. Daí ele me perguntou “o que é ser mulher?”. Não consegui responder, pois poderia dizer “é ter uma vagina” ou “é usar maquiagem” ou “gostar de rosa”, mas tudo isso faz parte de uma construção social. É o que dizem “aprende-se a ser mulher”. Se não considerarmos nenhum desses fatores, então o que é ser mulher? O que é ser homem?

Diante destes questionamentos, não consigo definir em qual gênero estou. Prefiro acreditar que nenhum. Transgredir esta imposição, assim como Linn faz. Nosso corpo é nossa objeto de estudo e de protesto. Vejo uma facilidade de aceitação da minha imagem por parte das crianças e mais jovens. Até minha avó que tá quase chegando aos 90, quando viu minhas unhas pintadas, pegou na minha mão e, mostrando para os outros da família, falou “olhas as unhas de Higuim”. E só. Não consegui definir se era surpresa, desaprovação ou não.

Semana passada, participei de uma roda de conversa sobre diversidade na faculdade em que estudei. Confesso que fiquei bem nervoso, pois na época em que estudava lá, eu não usava maquiagem e nem roupas “femininas”. Fiquei com medo da reação das pessoas, dos funcionários e dos meus professores. Logo na entrada, já dei de cara com a diretora acadêmica, coordenador do meu curso e professor de cálculo. Na mesa, havia um pastor evangélico, um líder espírita, uma feminista e um ateu. Depois que a mesa teve início, tudo ficou mais tranquilo e no final, o gostinho de quero mais. E uma moça muito simpática, chamada Amanda ainda me deu seus brincos e uma pulseira linda. 

Os dias de bixa preta e pobre não são muito fáceis. Ainda mais quando você decide militar na sua cidade de origem, onde até o padeiro já deve ter te segurado quando criança. De qualquer forma, espero que as próximas gerações sejam mais livres. Livres dos preconceitos, das imposições, das mortes, e das expectativas exageradas que colocam sobre cada uma de nós. Essa luta não é só minha. Essa luta é nossa!

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