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Aquela Sobre Aquela Do Verão

Todo ano, tenho que contar nos dedos quanto tempo faz que minha mãe morreu. Daqui há alguns dias já faz seis anos. Achei engraçado reler um texto em que relatava os acontecimentos do dia em que ela se foi. Não lembrava mais dos detalhes. Aos poucos, um borrão branco vai sendo criado no lugar das lembranças. Pensando bem, foi até uma boa ter escrito aquele texto.


De fato, muita coisa mudou. Não julgo ser ruim, é algo natural da vida. Tudo muda, as músicas, a política, a cultura, as tecnologias, e principalmente as pessoas mudam. O verão veio e foi diferente também. Comecei em uma nova casa, longe o suficiente para não pirar com as pessoas tentando me reconfortar, mas não tão longe a ponto de estar longe da família e amigos.

Acreditei que poderia passar o resto da vida comendo fast-food, mas logo percebi que não dava. Morando em uma espécie de república, aprendi a cozinhar com os outros moradores. Comecei com arroz, depois veio o feijão, que me dava um pouco de medo, por causa da panela de pressão, mas estava disposto a aprender.

Depois desse tempo todo, a maior mudança que eu percebi, nem foi em relação às atividades domésticas, ou em ter que trabalhar para me sustentar. A maior mudança foi em mim mesmo. Na maneira como eu aprendi a ser menos dependente das pessoas, não só financeiramente, mas também emocionalmente. Chega a parecer melancolia, mas acho que é uma amadurecimento que todo mundo deveria passar.

Não culpo “Deus” ou o Universo por me tirá-la. Eu sabia que esse dia chegaria, mas não precisava ser tão cedo. Pra falar a verdade nunca estamos realmente preparados para perder. Não ter mãe já se tornou algo comum, tão comum que, às vezes, nem percebo que não a tenho mais. Pode parecer estranho, mas a gente se acostuma. Aprende a dançar conforme a música. Existe felicidade, após a tempestade? Existe. E os verões ainda podem ser quentes!

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