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Estalo

Houve um tempo em que eu me preocupava muito sobre o que diziam de mim, primeiro porque eu frequentava a igreja e depois porque eu tinha um irmão que era o diabo em forma de gente. Eu já falei sobre ele no texto “No Embalo da Cocaína”, nós éramos completamente opostos. Com toda essa bagunça, eu acabei absorvendo a responsabilidade de mostrar pra sociedade de que minha mãe não havia nos criado errado. Que não era culpa da minha família ou falta de surra, mas, infelizmente, essa era a conversa que rondava. Quando você tem algum usuário de drogas na família, as pessoas querem culpar alguém. Geralmente é a mãe.

Foto: Bekoo das Pretas Luara Monteiro
Depois de perder os dois, eu percebi que não importava o que eu fizesse, eles não iriam voltar. E as pessoas, na maioria das vezes, falam as coisas da boca pra fora. Quando meu irmão morreu, eu fui pra escola na semana seguinte. Durante a aula um colega de classe, que provavelmente não sabia que era meu irmão, falou em alto e bom som “tinham que matar mesmo!”. Minha única reação foi olhar para trás e encará-lo olho a olho. Depois disso, na hora do recreio, na fila da merenda, eu pude ouvir os sussurros das serventes após eu passar: “olha, ele era irmão dele”. Mas dessa vez, eu simplesmente ignorei. Eu sabia que aquele assunto era só mais uma fofoca, logo seria esquecido.

Então, pensando em tudo isso, eu tive um “estalo”. Resolvi não ligar a mínima para o que iriam falar de mim, e isso foi libertador. A questão é que exagerei em alguns momentos e isso não foi muito bom. Mas acho que é normal e faz parte do aprendizado. Passei momentos realmente ruins e, em muitas situações, eu me vi sozinho. Quem me julgava não estava lá, não me estenderam a mão. Todavia, a vida me aproximou de pessoas que gostam de mim de verdade e não me julgam pelo que sou ou o que faço. Encontrei a minha turma, gente doida e feliz. Hoje, sinto-me acolhido e amado. Ah! E, antes que eu me esqueça, pau-no-cu-dos-haters!

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